Hoje, trago a vocês mais uma novidade aqui do blog. Tive a honra de fazer uma entrevista com minha querida madrinha, Sandra Maria, autora do livro “No verso do Caso”, cujo volume II está prestes a ser publicado. Ela me concedeu esta entrevista, remotamente, no final de 2020, quando o mundo passava por restrições sanitárias. Está sendo uma honra para mim fazer parte deste projeto, que é simplesmente fantástico, onde Sandra Maria desafia os padrões formais ao inserir prosa e verso no mesmo texto. Transcrevo abaixo o inteiro teor da primeira parte desta aula de vida, profissionalismo, humildade, maturidade e coragem ofertada por esta grande professora de inglês e poeta goiana. Ela mesma, no decorrer da entrevista, contará suas histórias e inspirações.
Um detalhe importantíssimo: Esta entrevista também estará disponibilizada, em sua totalidade, logo ao final do volume II do livro supracitado, cujo lançamento está marcado para agosto de 2023. Boa leitura!
Introdução
Gostaria, inicialmente, de agradecer a honra desta entrevista e, também, de pedir licença para ser muito pessoal nas minhas respostas. Elas são fruto da experiência de alguém que sempre gostou de ler, que gosta de escrever, que teve formação em letras e literatura, mas que, principalmente, gosta de pensar sobre leitura e literatura de uma maneira muito pessoal. Quero falar das minhas experiencias, como leitora e escritora, e das conclusões que amadureci ao longo dos meus setenta e três anos. Minhas abordagens não serão técnicas. Obras de especialistas respeitáveis nas áreas de leitura e literatura estão disponíveis, para informação e estudo, em quantidade e qualidade que nos deixam muito orgulhosos da produção da intelectualidade brasileira. E eu não estou entre estes especialistas. Estou entre aqueles que amam o livro, que fez dele seu companheiro de vida, sua fonte e seu refúgio, suador e seu prazer.
1.
Paulo Marcos: Qual a importância da leitura no aprendizado das pessoas?
Sandra Maria: A vida, como constante aprendizado, nos oferece vários caminhos para evoluir. Assim como a imitação que vem do exemplo, a experiência que vem da prática e o estudo que vem da formação educacional, a leitura é um dos caminhos mais importantes para o desenvolvimento intelectual e moral do homem.
Como parte do aprendizado escolar, acadêmico, técnico-profissional, a leitura é obrigatória. Como caminho para extrapolar limites, alcançar níveis extraordinários de saber, enriquecer a mente, sentir prazer estético, a leitura é opcional. Em qualquer aspecto e em todos os aspectos, a leitura é poder. Não só como apreensão do “conhecer” e do “saber”, mas como apreensão do ‘ser”, como apreensão da vida em sua plenitude.
Ninguém, após terminar a leitura de um livro, permanece quem era antes. A leitura muda a pessoa, expande sua maneira de ser, de pensar, de sentir, de agir, ao conhecer melhor o mundo com sua enorme diversidade linguística, histórica, suas tradições e suas crenças. A leitura mostra nossa pequenez dentro de um universo humano, científico, cultural e artístico incomensurável. Conhecer novas facetas deste universo vasto e variado, nos livra da ignorância, dos preconceitos, das ideias pré-concebidas, dos julgamentos errôneos, e nos faz questionar e refletir sobre nossas chamadas verdades absolutas nos ensinando respeito e tolerância, nos levando a crescer como pessoas e como profissionais.
Para quem gosta de ler, e lê por opção, leitura é lazer e torna-se um hábito. Eu me acostumei a ler em qual quer lugar a qualquer hora. Carrego o livro na bolsa e aproveito todas as oportunidades. Sempre estudei muito, trabalhei muito, e nunca tive muito tempo disponível ou momentos totalmente de folga para ler. Aprendi a encaixar a leitura nos intervalos, a ler à noite, me privando do sono, a ler durante as refeições, o que não é saudável. Li sempre, e li muito.
Tenho mais tempo, hoje, e a leitura é parte essencial do meu dia a dia. É necessidade, é diversão, é cultura, é um momento meu, aparentemente solitário, mas, paradoxalmente, um momento de comunicação, de incríveis encontros, de aventuras apaixonantes, de descobertas surpreendentes, de reações intensas aos sentimentos mais controversos. A leitura me multiplica, me torna múltipla, me faz viver outras vidas, ser outras pessoas, tudo enquanto meus olhos percorrem as palavras, minha mente apreende outras realidades e meu coração bate no peito de outros seres humanos.
Você quer saber se há um momento ideal para ler?
Para mim, não. Cada um pode fazer o seu momento, uma vez que encontre, primeiro, a vontade de ler. Uma vez existindo o desejo, o hábito de ler será uma consequência. E o que provoca o desejo? Esta incitação ao desejo pode advir de fatores externos ou internos.
Pode ser por curiosidade, imitação, sugestão, indicação. Pode ser por uma experiência anterior agradável. Pode ser até, mesmo, porque a pessoa viu um filme e quer conhecer melhor a história (acontece muito quando filmes feitos a partir de um livro se tornam grandes sucessos). Pode ser, simplesmente, porque a pessoa quer ter um hobby solitário ou porque não quer parecer inferior no meio em que convive (sim, ser leitor confere status). Pode ser por motivos superiores como para ser uma pessoa culta ou para complementar sua educação formal. Os motivos são tantos que seria impossível enumerá-los. O importante é que eles sejam o ponto inicial de um hábito, cujos retornos também são inumeráveis.
Outra pergunta sua: É necessário um preparo para a leitura?
Uma maneira interessante de provocar a leitura é a escolha do gênero e do tema. Há livros escritos sobre os mais variados assuntos, claro, desde o relatório estritamente factual até a poesia mais inspirada e imaginativa. Desde quadrinhos até obras de Machado de Assis, o que você quiser ler, pode acreditar que você encontrará, desde que esteja no estado de espírito, ou no humor, ou no clima de leitura. A decisão sobre o que se gostaria de ler geralmente suscita o interesse inicial e fortalece a vontade. O início de qualquer caminhada é carregado de indecisão e receio. Um bom começo é a chave para a constância. A escolha do livro certo é esta chave. De um livro se passa a outro, alarga-se o objetivo, expande-se o tema, encanta-se com o modo de escrever de determinados autores… Assim, os conteúdos vão mudando, os autores também, e os encontros vão se sucedendo com novos gêneros e estilos diferentes, e as novidades não têm fim.
Você me pergunta também: Como se concentrar na leitura?
Bem, hoje em dia, com a atração da imagem e do som, as crianças e os jovens sentem muita dificuldade em se concentrar no livro. Desenhos, filmes, seriados, jogos, redes sociais atraem muito mais do que a leitura. As novas gerações foram acostumadas ao estímulo da luz, da cor, do movimento, da sonorização e se viciam nesta abundância de provocação dos sentidos. Como concorrer com o livro? Não tenho a resposta certa. Minha experiência e meu conhecimento nesta área são muito limitados. Só posso falar na minha experiência pessoal em relação à educação das minhas filhas. Consegui fazer delas grandes leitoras. Elas também gostar de escrever e escrevem bem. O que posso sugerir é que os pais leiam para seus filhos todo dia, antes e mesmo depois da alfabetização, que os levem às livrarias para ajudar a escolher os livros. Que os levem às bibliotecas. Que os levem às feiras de livros. Que os levem a lançamentos de livros infantis. É importante provocar e insistir no hábito da leitura desde cedo e fazer deste começo um ato prazeroso. Assim, ele poderá ser contínuo e crescer na medida em que o leitor descobre que a leitura (que começou como um momento de alegria com os pais e se transformou em um hábito solitário), pode ser, sempre, em qualquer lugar e a qualquer hora, uma experiência absolutamente extraordinária.
2.
Paulo Marcos: Como as escolas devem incentivar a leitura?
Sandra Maria: Este assunto tem sido abordado com grande intensidade pelos estudiosos da área da educação. Eu fui professora por poucos anos (dei aula de Inglês na universidade) e nunca me dediquei ao estudo do incentivo da leitura em escolas.
No meu caso particular, como mãe, eu optei mais por me empenhar em realizar meu próprio projeto de leitura para minhas filhas do que em questionar as iniciativas das escolas que elas frequentaram. O que vinha da escola era complemento. O principal era orientado por mim.
No meu caso particular, como professora, meus alunos eram jovens e adultos universitários. O que eu procurava fazer, como professora de língua (língua inglesa) e não de literatura, era tentar convencê-los de que, se lessem mais, falariam e escreveriam melhor a língua estrangeira que estavam aprendendo. Isto é um ponto básico, aceito para qualquer nível de ensino, para o aprendizado de uma nova língua ou para o aprimoramento da língua nativa.
Não se trata de copiar o que outros escrevem, mas ter experiências com as obras de bons escritores é uma forma subliminar de aprender a se expressar bem, escrita ou oralmente. Somos uma esponja que vai absorvendo, ao longo da nossa vida, o que nos chega pelos sentidos. que processamos pelo cérebro e expressamos pelos sentidos. O nível qualitativo desta absorção é difícil de controlar, pois não podemos escolher nem selecionar o que vem do exterior para nosso interior. No entanto, pelo menos parcialmente, a leitura pode ser controlada. Sua escolha vai definir os seus resultados.
Considerando a minha grande paixão pela literatura eu sempre aproveitei a sala de aula no ensino do inglês para falar de livros, autores, gêneros e movimentos literários e as vantagens da leitura. Contudo, creio que meu entusiasmo e meu genuíno interesse pela literatura convenceram mais alunos a se tornarem leitores pelo encantamento e prazer de um poema ou de uma história, do que pelos resultados práticos que o hábito da leitura lhes traria.
Resumindo, acredito que o incentivo ao hábito da leitura literária pressupõe um convencimento que passa muito mais pelo lado lúdico (levar a criança a se divertir) e prazeroso (levar o adulto a se surpreender) do que pela obrigatoriedade imposta por programas educacionais.
3.
Paulo Marcos: Quais autores foram importantes na sua formação como leitora e escritora?
Sandra Maria: Muitos! Seria impossível apenas nominá-los, todos, aqui, no âmbito desta entrevista. Posso fazer listas e mais listas dos mais importantes para mim. A maioria deles é reconhecida por especialistas em crítica literária. Muitos fazem parte de compêndios literários.
Muitos outros, principalmente os contemporâneos, que o tempo ainda não consagrou, e os goianos, que ainda são desconhecidos do grande público.
Todos esses autores, que li e me influenciaram, eu passei a admirar por motivos diversos, mas todos tem algo em comum: talento literário inegável, regra básica para que um escritor seja respeitado e eternizado na história literária de um país e, mesmo, na história literária universal.
Alguns autores foram importantes para mim pelo conjunto da obra, outros pelo vanguardismo, pela liderança na introdução de novos movimentos literários, pela excelência entre seus pares de um mesmo gênero literário, pela temática, pela divulgação de costumes e cultura, pela originalidade e beleza da linguagem, pelo estilo próprio, pela emoção que me causaram, e por tantos outros motivos.
Vou, então, me ater a apenas um autor. Aquele que me mostrou um outro mundo além da minha realidade.
Se você perguntar para a Sandra Maria menina, quem era seu autor predileto, eu não hesitaria em responder por muitos anos Monteiro Lobato foi meu ídolo. Li toda a sua obra para crianças, avidamente, me diverti e aprendi muito. Mitologia grega, por exemplo, está toda lá, assim como o folclore brasileiro. A apropriação do repertório mitológico da cultura grega durante a minha infância teve um impacto inesquecível na minha vida. A propagação de lendas e mitos do Brasil e a popularização de personagens do folclore nacional enriqueceram, desde cedo, a minha noção de cultura e tradição do nosso país, e a importância dos povos que formaram o povo brasileiro. Mas, o mais importante, com Monteiro Lobato aprendi a imaginar, a sonhar. Aprendi sobre o maravilhoso e sobre a fantasia. Aprendi o que é literatura fantástica, onde tudo pode acontecer.
Monteiro Lobato me abriu as portas para criar e escrever.
4.
Paulo Marcos: Como a senhora se mantém criativa? O que a inspira?
Sandra Maria: Como já disse, eu sempre gostei de escrever e essa constância me manteve criativa. É como um exercício com o qual você se acostuma e cria uma intimidade tal que ele se torna parte da sua vida. Meu cérebro está sempre efervescente. Já me acostumei com esta inquietude e ela não me atrapalha. É como se eu vivesse uma outra vida paralela e simultânea: a imaginação e a realidade. O presencial e o virtual. Ambos convivem bem.
Estou sempre imaginando situações, e minha mente está sempre criando palavras e frases que descrevem o que vejo, o que sinto, o que sonho, o que repudio, o que me agrada e me desagrada. Alguns embriões de meus escritos surgem como reações a momentos ou sensações. Se não os coloco no papel na hora, eu me esqueço deles e eles se perdem. Hoje, aprendi a salvá-los no meu celular, em áudio ou por escrito. Depois, quando os ouço ou leio, vejo que alguns são pensamentos vagos, alguns até incoerentes, aparentemente sem nexo, outros estranhos, mas eles carregam significados e podem se transformam em um poema ou em um conto. Nestes casos, eu identifico o ponto inicial que me levou a escrever. Podemos chamar este ponto inicial de motivo.
Às vezes, um poema vem inteiramente pronto na minha mente. O mesmo acontece com um conto em que personagem, conflito e final me chegam como embrulhados para presente.
Na maioria das vezes, porém, escrevo por impulso, sem pensar. Muitos dos meus contos eu começo sem saber onde vou parar. Raríssimas vezes, tenho um roteiro inicial (plano de começo, meio e fim) todo planejado quando começo a escrever uma história. Existe uma sugestão de tema e eu vou escrevendo. Às vezes, eu mesma sou surpreendida com o final. Outro dia escrevi um conto, que se passa nesta triste época de pandemia e, quando acabei, eu estava em prantos. Não havia nenhum roteiro, nenhum mesmo. Eu comecei com uma situação e um personagem. Fui escrevendo e cada parágrafo era uma novidade para mim e o final foi um choque.
Tenho dificuldade para descrever o que se chama de inspiração. Meu processo criativo é uma incógnita para mim. Na maioria das vezes eu não identifico o que me levou a escrever um poema ou um conto. Quando termino, não sei nem mesmo por que e como comecei.
Como já disse, às vezes, quando inicio um conto eu tenho apenas uma ideia ou uma única frase que me vem à cabeça, aleatoriamente. À medida que escrevo, vou desenvolvendo aquele ponto inicial e muitas vezes me surpreendo com alguns finais. Interessante notar que alguns personagens tomam vida própria e vão se impondo e fazendo e dizendo o que querem em uma história que devia ser minha, mas de que eles acabam sendo donos.
Algumas vezes, ao escrever poemas, sou motivada a me manifestar sobre fatos reais que me impressionam. Outras vezes reajo a sentimentos que a vida me traz, como alegria, tristeza, revolta, indignação, admiração, e escrevo textos mais direcionados, com objetivos específicos de expressar o que sinto ou penso.
Hoje, olhando para trás, vejo que, antes de começar a publicar meus livros, eu nunca tinha parado para refletir sobre meu processo criativo, nem colocado o “escrever” como minha maior prioridade. Tanto que nem cuidei bem de preservar os meus escritos. Eu nunca os guardei adequadamente e, hoje, eu sei o porquê escrever para mim era uma maneira de desabafar para mim mesma e não de me comunicar com outras pessoas. Uma vez estando pronto o poema, eu me dava por satisfeita. Não havia nenhum compromisso com a ideia de levá-lo a público. Esta responsabilidade sobre o que escrevo veio após a publicação de meu primeiro livro. É uma questão de respeito ao meu eventual leitor.
A decisão de publicar, na verdade, não nasceu de mim. Ela me foi imposta como um desafio e eu aceitei e cumpri o prometido.
Aconteceu assim. Em dezembro de 2016, fizemos na minha casa uma reunião natalina do meu “Grupo da Poesia” composto por amigas dos tempos de adolescência. Entre elas a escritora Sônia Helena, com vários livros publicados. Por iniciativa das minhas filhas Thais e Tainá, foram lidos poemas meus durante a reunião. Foi uma surpresa para mim. As colegas gostaram e Sônia Helena lançou o desafio de que eu seria a próxima do grupo a publicar.
Desde o momento em que tomei a decisão de procurar meus poemas (após minhas histórias românticas da adolescência, eu só tinha escrito poesia) entre os papéis guardados, para publicar um livro, eu passei a levar a sério o ofício de escritora. Aproveitei trinta deles (escritos em um período de cinquenta anos) e escrevi mais de quarenta novos poemas em nove meses, entre janeiro e setembro de 2017. Eles vieram naturalmente, sem nenhuma preocupação, sem pressão, não havia data para a publicação. No final de setembro, selecionei setenta poemas e no começo de outubro eles já estavam na editora para iniciar o processo de editoração. O livro, Folhas Secas sob meus pés, foi publicado em dezembro de 2017, exatamente um ano depois da tal reunião do “Grupo de Poesia”
O que, então, aconteceu naquele ano? Eu simplesmente tinha me tornado mais aberta ao processo criativo, tinha o propósito de escrever e tinha o compromisso de publicar.
Volto, então, à sua pergunta e chego à conclusão de que a criatividade é latente, mas precisa de motivação para se expressar em uma ou outra forma literária. Ela precisa ser ouvida, priorizada, levada a sério pelo escritor. As ideias sempre vêm, o que o autor precisa fazer é acolhê-las.
No meu caso, continuei a escrever poesia e me vieram ideias para voltar a escrever prosa, não só relatos de casos reais, autobiográficos, como, e principalmente, de contos de ficção, que estão no meu segundo livro, No verso do caso – Volume l, terminado em 2018 e publicado em agosto de 2019. Os poemas e os contos, escritos em 2019 e 2020, estarão no meu próximo livro, No verso do caso – Volume lI.
Fico feliz de estar em atividade e em fase criativa e só não escrevo mais por falta de tempo. Trabalho, ainda, no escritório dos negócios rurais da família, e, com a pandemia, que impede os idosos de receberem ajuda doméstica, virei uma dona de casa faz de tudo (que continua criando na sua imaginação, enquanto lava louça e limpa o chão).
No próximo post, trarei o restante da entrevista para vocês saborearem e consumirem mais um pouco de conhecimento literário.
Até breve!