Sem muita demora na publicação deste post, pois nele você se deliciará com a sequência da entrevista que fiz com a autora do livro “No verso do acaso”, Sandra Maria. Aproveitem!
5.
Paulo Marcos: O que mais a influenciou a começar a escrever?
Sandra Maria: Sem sombra de dúvida foi a leitura. Sempre li avidamente. Meu pai me incentivou desde sempre. Ele era um homem muito estudioso (advogado, professor e escritor) e tinha uma biblioteca riquíssima. Eu ficava fascinada com o escritório dele, cheio de estante de livros, cheio de papéis. E a escrivaninha dele, então? Eu adorava me sentar na sua cadeira e usar a mesa dele como se fosse minha. Também, o fato do escritório ser um cômodo bem recluso (afastado do barulho normal do dia a dia de uma casa de uma família grande) me encantava por causa do silêncio e da privacidade. Ali, comecei a imaginar, a criar, a me sentir íntima do papel e da palavra escrita. Ali, a minha alma encontrou como se expressar.
Foi minha mãe quem me ensinou a ler e a escrever, na mesinha da máquina de costura dela, quando eu tinha cinco anos (depois de muito azucriná-la). Meus irmãos mais velhos iam para a escola e eu também queria ir, mas, naquele tempo, não havia disponibilidade de escolas infantis que oferecessem maternal, jardim e pré-primário. A gente entrava na escola com sete anos já direto para aprender a ler e a escrever.
Eu me lembro que, na escola, tínhamos a disciplina Trabalhos Manuais e, durante as aulas, a professora me colocava para ler em voz alta para a turma não conversar. Eu preferia ler a fazer bordados e enxoval de bebê. A escola preparava as meninas para serem moças prendadas. Quando chegava o dia da exposição dos trabalhos, eu recorria à minha mãe para preparar alguma coisa para eu apresentar, pois tinha passado o curso todo lendo.
Outra grande motivação para escrever foi o meu desejo de ser professora. Sempre tive esta profissão no mais alto apreço. Gostava dos meus professores e gostava de estudar. Para mim, o professor está ligado ao saber, à cultura e à erudição. Esta noção veio do valor que sempre dei àqueles que me abriram caminho para eu poder ser feliz apreciando o belo na arte, seja literária, musical, cênica, plástica, visual.
Comecei a escrever ainda criança. Ainda guardo alguns poemas com temas bem inocentes e rimas bem pobres, escritos quando era menina. Também tenho contos românticos do início da minha adolescência. A maior parte do que escrevi, quando estava ainda no Curso Ginasial (primeiro grau) no Colégio Assunção e no Curso Normal (segundo grau) no Instituto de Educação de Goiás se perdeu. Eu escrevia histórias em folhas soltas de caderno e elas iam sendo passadas de carteira em carteira para cada aluna da sala. As colegas me incentivavam e me pressionavam a escrever rápido porque ficavam curiosas com o desenrolar dos romances. Era muito divertido.
Bem, este foi o começo. Depois, vieram outros momentos, outras motivações.
6.
Paulo Marcos: Quais os livros que a senhora publicou?
Sandra Maria: Como já disse, escrevo desde criança.
Comecei a escrever poemas com mais seriedade nos anos 60, sem nenhum interesse em juntá-los em um livro, embora alguns tenham sido publicados em jornais e revistas. Infelizmente, não tive muito cuidado em guardar os poemas e muitos desapareceram. Alguns dos que sobraram, eu os inclui no meu primeiro livro.
A partir de dezembro de 2016, quando me decidi pela publicação de um livro de poesia, intensifiquei meu processo produtivo e escrevi uma grande quantidade de poemas em um curto espaço de tempo. Folhas Secas sob meus pés foi publicado em agosto de 2017. quando eu tinha 70 anos. Este livro marcou uma guinada existencial marcante na minha caminhada e me definiu como escritora. Tem, portanto, um significado pessoal intenso e gratificante.
A partir daí, passei a escrever poemas com muita regularidade e frequência. Só em 2018, voltei a escrever prosa.
Em 2018, escrevi “No verso do caso” – Volume l, publicado em agosto de 2019. Neste livro, intercalo poemas e contos. Alguns contos são seguidos de poesias relacionadas ao mesmo tema do conto, em que eu procuro tecer fios de ligação entre as duas formas de expressão literária em um mesmo momento. Os capítulos do livro são definidos por cores, que exprimem o amor, a saudade, a coragem, a tristeza, o riso.
Em 2019, também publiquei Elos de Rosarita Fleury – uma homenagem, que é um ensaio crítico-literário do romance Elos da mesma corrente da romancista, poeta e historiadora goiana, Rosarita Fleury. O livro teve seu embrião em uma palestra que proferi na ANE – Associação Nacional de Escritores, da qual sou membro, na sede da entidade em Brasília, em outubro de 2019.
Ao longo dos últimos anos, tenho participado de antologias e revistas da AFLAG – Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás e da ANE – Associação Nacional de Escritores, associações às quais pertenço, e, também, tenho contribuído para outras coletâneas, como. por exemplo, algumas dedicadas, exclusivamente, a textos em prosa e verso relacionados à pandemia causada pela COVID-19.
7.
Paulo Marcos: Atualmente está escrevendo algum livro?
Sandra Maria: Sim. Estou finalizando o Volume II de “No verso do caso”. Todos os poemas e contos que escrevi a partir de janeiro de 2019 estarão neste livro, que eu planejei publicar, inicialmente, em 2020, mas que tive que adiar para 2021, devido às limitações impostas pela pandemia.
Trata-se da mesma proposta do Volume I, com poesia e prosa, mas com duas pequenas diferenças.
Em relação aos contos, são raras as histórias ligadas a lembranças reais da minha vida, ou seja, casos autobiográficos contados de um modo criativo. A grande maioria dos contos é de ficção. Estas narrativas imaginárias abrangem uma temática bem variada e vão de histórias realistas a fantásticas.
A outra diferença é que estou incluindo uma quantidade bem maior de poemas em língua inglesa, e, pela primeira vez, um conto escrito em inglês.
8.
Paulo Marcos: Existe algum projeto que gostaria de fazer e que ainda não fez?
Sandra Maria: Sim. Na verdade, já comecei, há muito tempo, mas ainda não completei. Trata-se de um projeto denominado “Moradores pioneiros das ruas pioneiras de Goiânia”, que conta com o apoio da Academia Goiana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.
O projeto inclui a participação de moradores (ou ex-moradores) das ruas pioneiras do centro de Goiânia que se propõem a resgatar a história destas ruas por meio da história de seus habitantes pioneiros, abrangendo as décadas de 40, 50 e 60.
O escritor Ubirajara Galli, como curador desta histórica coletânea, defende que, para contar a história de uma nação, de uma cidade, é imprescindível conhecer seu povo” e, embora lamente a memória já perdida, ressalta que a historiografia urbana goianiense ficará mais rica com esse projeto. Ele “fará da capital edificada por Pedro Ludovico a mais documentada humanamente entre todas as outras, ao registrar as ações dos seus moradores que contribuíram para o crescimento da sociedade goianiense e goiana como um todo.”
É com muita alegria que aceitei o convite e o desafio de buscar a memória de nossa querida Rua 26 – hoje Rua Dona Gercina Borges Teixeira, em homenagem à nossa ilustre vizinha. Nesta rua minha família morou por muitos anos. Por isto, estou contando com a colaboração de meus irmãos Marco Túlio Fontoura Queiroz, Maria Adelaide Queiroz Rezende, Evandro Geraldo Fontoura Queiroz e Maria Tomázia Fontoura de Queiroz para depoimentos pessoais, realização de entrevistas com os moradores pioneiros e seus descendentes, coleta de fotografias e de documentos pertinentes.
Tenho intenção de retomar o projeto em breve, mas confesso que acho a pesquisa histórica mais difícil do que a produção criativa. Ela exige uma dedicação maior, pois envolve a busca pelos moradores antigos e a coleta de dados, tudo dentro do rigor ético e da fidelidade factual.
9.
Paulo Marcos: Tem vontade de escrever uma autobiografia?
Sandra Maria: Não! Minha vida não é interessante o suficiente para uma autobiografia.
E, para ser bem sincera, em relação à produção literária em prosa, eu prefiro a narrativa criativa de ficção à pesquisa histórica ou à biografia. Eu me sinto mais à vontade e mais feliz inventando casos fictícios do que fazendo relatos de casos reais.
Contudo, se eu tivesse que escrever a biografia de alguém, eu escreveria a do meu pai, Jerônimo Geraldo de Queiroz, que foi um grande homem. Já escrevi muito sobre ele em discursos que proferi em momentos de homenagem a ele, em diversas circunstâncias e lugares. Também escrevi, em parceria com minha irmã Maria Tomázia Fontoura de Queiroz, um ensaio intitulado “Traços de uma vida”, que relata os principais momentos da vida de nosso pai. Este texto está publicado no seu livro póstumo de poesia, Sombras vespertinas. Contudo, um trabalho mais abrangente ainda está por ser feito.
Voltando à pergunta, o escritor, de uma maneira ou de outra, ao longo de sua vida, acaba por fazer relatos autobiográficos. Seja, por exemplo, em entrevistas como esta, em que revelo um pouco de mim, seja em escritos com pinceladas autobiográficas, como em alguns casos que publiquei no meu livro No verso do caso – Volume l, em que conto algumas histórias de passagens da minha vida.
O leitor deve ficar atento, porém, para não entender sempre como confissões pessoais um poema ou uma história em primeira pessoa. É certo que o escritor, seja na prosa ou na poesia, faz reflexões pessoais nos seus textos criativos, mostrando sua opinião sobre diversos aspectos da vida. Nesses textos, o leitor pode identificar os posicionamentos do autor em relação aos mais variados assuntos. O autor pode, também, passar para os seus textos os próprios sentimentos, sofrimentos, alegrias, desejos. Pessoalmente, eu confesso que não estou imune a revelações pessoais nos meus poemas, mas eles refletem, na maioria das vezes, reações a situações que são universais.
10.
Paulo Marcos: Como a senhora faz parte da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – AFLAG, poderia contar uma breve história desta entidade?
Sandra Maria: Sob a liderança de Rosarita Fleury, poeta e romancista, três valorosas mulheres goianas, Nelly Alves de Almeida, escritora e professora de português e literatura, e Ana Braga, advogada, política e grande oradora, abraçaram o sonho da criação de uma academia feminina. Na memorável noite de 09 de novembro de 1969, a AFLAG – Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás foi criada com a presença, inclusive, do então Reitor da UFG, Prof. Jerônimo Geraldo de Queiroz, seu avô.
Conforme conta a escritora Maria Elizabeth Fleury Teixeira, filha de Rosarita Fleury e atual presidente da AFLAG, em seu livro Rosarita Fleury, minha mãe, a meta principal sempre foi a de “unir ações e iniciativas femininas nas letras, música e artes em geral, valorizando-as, incentivando-as por meio de encontros, recitais, palestras e debates, teatro e exposição artística”.
A AFLAG comemorou os seus 50 anos em 2019, tendo alcançado os objetivos culturais, educacionais e sociais que almejava, abrigando nos seus quadros legítimas e produtivas representantes de várias áreas literatura (inclusive infantil), música e artes em geral como pintura, escultura e teatro, além da pesquisa histórica e da arquitetura.
Tenho certeza de que você absorveu um conteúdo de altíssimo nível lendo este artigo. Em breve, publicarei uma entrevista com outra renomada escritora brasileira. Fiquem atentos às postagens!
Até mais!