Hoje, tenho a honra de transcrever a entrevista que fiz com minha amiga, de quem sou muito fã, a escritora Sôniahelena. Ela é licenciada em Letras Modernas, Arquiteta-urbanista, Mestra em Planejamento Urbano, atua como consultora de diversas instituições nacionais e internacionais nas áreas de ordenamento territorial e planejamento urbano e turístico. Tem artigos e ensaios apresentados em seminários, congressos, simpósios, e publicados em revistas técnicas.
Como urbanista, coordenou ou participou, entre vários outros, da elaboração de dezenas de Planos Diretores para municípios no Pará, Rondônia, Tocantins, Minas Gerais e Rio de Janeiro; da estruturação do Programa de Desenvolvimento Turístico da Região Sul do Brasil – PRODETUR-SUL; do Plano de Uso Público para o Parque Nacional de Aparados da Serra – RS; de Planos de Desenvolvimento Turístico para o Litoral Norte do Espírito Santo, Sergipe, Região da Serra da Bodoquena – MS, Polos Costa Branca, Seridó e Costa das Dunas, todos no RN; da análise dos aspectos urbanísticos no Estudo de Impacto Ambiental da UHE de Belo Monte – PA; do Programa de Gerenciamento Ambiental da AHE Simplício – Queda Única, no rio Paraíba do Sul, entre MG e RJ; dos Planos de Revitalização da Orla de Belém – PA, de Revitalização das Zonas Especiais de Interesse Cultural do Centro de Campo Grande – MS, e do Estudo Comparativo de Centros Históricos com vistas à revitalização do Centro Histórico de João Pessoa – PB.
Como Escritora, participa da Associação Nacional de Escritores – ANE, Brasília – BR, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHG-DF e da Associação Casa Álvaro de Campos – CAC, Tavira, PT. Colabora com cadernos culturais de jornais e revistas e nas coletâneas da ANE. É responsável pela organização do livro Quintas Literárias, publicação anual, desde 2017, das palestras realizadas quinzenalmente, pelo programa de mesmo nome, no Auditório Cyro dos Anjos, da ANE.
No decorrer da leitura, vocês poderão conhecer os títulos de suas obras, seus projetos e aprender bastante sobre esta talentosa escritora.
1- Quais autores brasileiros deixaram acervos significativos para a história?
Muitos. São tantos os bons autores nacionais que levaria algumas horas para comentá-los, correndo sério risco de, inadvertidamente, omitir algum. E é difícil fazer uma seleção porque ela sempre será incompleta, deixando fora um ou outro autor muito importante.
Como não poderei listar todos, apenas para relembrar alguns dos mais importantes nomes nos diferentes gêneros literários, sendo que vários deles passeiam por mais de um gênero, menciono Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Josué Montello, Jorge Amado, Érico Veríssimo como alguns dos melhores romancistas; Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues, Cyro dos Anjos, Clarice Lispector, Danilo Carlos Gomes, Antônio Maria, Rachel de Queiroz, Carlos Eduardo Novaes, entre os destacados cronistas; Cruz e Souza, Gonçalves Dias, Castro Alves, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Cecília Meireles, Mário Quintana, Paulo Leminski, Anderson Braga Horta, Vinicius de Morais, dentre os renomados poetas; Monteiro Lobato, Viriato Corrêa com suas histórias infantis para todas as idades; Oswald e Mário de Andrade, Ferreira Gullar, Rubem Fonseca, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, no rol dos mais modernos. E os contemporâneos Antonio Carlos Secchin, João Almino, Lya Luft, Adélia Prado, Ana Miranda, Milton Hatoum, Luís Fernando Veríssimo, Ana Maria Gonçalves. E tantos, tantos mais…
2- Quais os gêneros literários mais importantes? Acontecimentos econômicos e políticos marcaram esses gêneros?
Não consigo fazer essa distinção de importância maior ou menor entre os diferentes gêneros literários. Eles são diferentes, isso sim. Cada um tem sua importância e destaque próprio e se presta a um tipo de expressão literária particular. A estrutura do texto, a forma de composição literária, a abordagem do tema, o modo de apresentar personagens, tudo isso tem particularidades e peculiaridades singulares para cada gênero literário, que o distingue dos demais.
Alguns autores trazem para seus escritos o panorama político ou socioeconômico de sua época. É o caso, por exemplo, da trilogia O tempo e o vento, de Érico Veríssimo que, ao narrar a saga dos Terra-Cambará por duzentos anos, de 1745 a 1945, relata também boa parte da história política do Rio Grande do Sul nesse mesmo período. Ou de Jorge Amado, que faz um retrato social da Bahia ao criar os seus romances. Já outros autores criam ficção pura, destacadamente na poesia. Afinal, Fernando Pessoa já dizia que “o poeta é um fingidor”.
3- Quais as funções da literatura?
Entendo que a primeira função da literatura é permitir o voo do pensamento nas asas da imaginação, qual borboleta liberta da crisálida e movida pela ilusão. Um bom texto vale por si só, fala por si mesmo. A literatura, além de prazerosa, abre horizontes, descortina realidades desconhecidas, revela fatos novos, provoca a imaginação, instiga a reflexão e permite o deleite do espírito. Mas não resta dúvida de que a literatura é também uma excelente forma de se registrarem os tempos, costumes, histórias e tradições. E pode ser também um meio muito eficaz de denúncia e protesto, de manifestação de indignação face a acontecimentos sociopolíticos aviltantes ou reprováveis. Tanto pode fazer memória, quanto apresentar proposições; caminha no tempo e no espaço, com o maior desembaraço e nenhum compromisso predefinido com a realidade. Pode ser dela um retrato muito bem traçado, como pode apresentar o realismo fantástico de um Garcia Marques, em alguns de seus livros, um José Saramago, em Intermitências da Morte ou um Érico Veríssimo, em Incidente em Antares.
4- Quais as características da linguagem literária?
Penso que a linguagem literária tem dois compromissos principais: ser verdadeira e se mostrar bela. Não importa se em prosa ou verso, se erudita ou popular, se rebuscada ou direta, a linguagem literária não deve abrir mão da verdade, ainda que vá a fingir, como dizia Fernando Pessoa. E precisa trazer beleza em suas linhas. A expressão adequada, o ritmo melódico da tessitura, as imagens apropriadas, delicadas, ainda que falem da vida malsã ou das crueldades do mundo, a dosagem certa entre os diferentes trechos, parágrafos ou relatos, tudo isso faz a linguagem literária ter um espaço próprio, uma forma singular, uma personalidade que é só sua.
“Escuto o meu rio: é uma cobra de água andando por dentro do meu olho.” 1
“Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” 2
“Irei embora sozinho. Sem angústia nem pesar. Antes contente da vida, que não pedi, tão sofrida, mas não perdi por ganhar.” 3
“… E nas pedras rudes do meu berço gravei poemas.” 4
“Somos feitos da mesma substância de que são feitos os sonhos. E, entre um sonho e outro, decorre a nossa curta existência.” 5
“Nós, que somos tão bons como vós, juramos a Vossa Mercê, que não é melhor do que nós, aceitá-lo como rei e senhor soberano, sempre que respeitardes todas as nossas liberdades e leis; senão, não.” 6
As citações aqui apresentadas, parte de poemas, crônica, peça teatral ou ritual protocolar, foram escritas em épocas diferentes, por pessoas de nacionalidades, história de vida, cultura e experiências distintas. Todas elas, no entanto, são reconhecidas por sua riqueza literária, seu ritmo melódico e seu simbolismo criativo. Essas características, a meu ver, são o que existe de valor na linguagem da literatura, seja ela expressa em prosa ou verso.
1 “Poeminhas pescados numa fala de João”, de Manoel de Barros, em Compêndio para uso dos pássaros. 2 “Poética”, de Manuel Bandeira do livro Libertinagem
3 “A partida” de Vinicius de Moraes em Poemas, sonetos e baladas.
4 “Semente e fruto”, de Cora Coralina, em Vintém de Cobre – meias confissōes de Aninha 5 Shakespeare em A tempestade
6 Juramento de homenagem ao Príncipe da Catalunha, Séc. XIV
5- O que a senhora acha que mudou no processo da escrita literária ao longo dos anos?
A literatura reflete a vida, ainda que imaginária e, como ela, tem uma dinâmica permanentemente inovadora. A forma de expressão das gentes transforma-se ao longo dos tempos; a literatura ajusta-se a essas transformações e reflete essa evolução. Chega, mesmo, por vezes, a inventar palavras, adiantando-se ao processo evolutivo da linguagem.
A globalização e o avanço tecnológico nas comunicações têm provocado, cada vez mais, mudanças na forma de escrever. As pessoas hoje são apressadas, querem respostas rápidas, soluções imediatas. Ao invés da carta, usam o e-mail; no lugar das enciclopédias, consultam o Google ou outro aplicativo dessa natureza; em vez do telefonema, mandam um zap; no lugar do comentário ou apreciação, enviam um emoji.
A linguagem literária tem que se aperceber disso e trazer para o leitor a facilidade esperada, mas é preciso que, atrelada a ela, apresente qualidade linguística, estilo, riqueza de conteúdo, originalidade.
E inegável que, assim como na música, nas artes plásticas, no cinema, os clássicos literários são atemporais. Nas citações apresentadas na resposta à questão anterior, temos escritos que vão do século XIV aos dias atuais. Todos eles poderiam ter surgido em qualquer período nesse intervalo de tempo e carregariam consigo a mesma beleza, a mesma verdade, o mesmo valor literário.
6- Qual sugestão a senhora daria para aqueles que desejam fazer de sua palavra uma arte?
Estou convencida de que a primeira coisa a fazer para quem quer dedicar-se à arte literária é aplicar-se com afinco à leitura. Ler, ler, ler, e seguir lendo. Considero impossível a existência de um bom escritor que não seja, antes, um excelente leitor. E é preciso despir-se de preconceitos. Gêneros literários variados, clássicos ou populares, best-sellers ou pouco difundidos, é importante ler de tudo. Apenas uma coisa precisa estar sempre presente: a análise crítica do que se lê. De Brigitte Monfort, heroína da CIA nos livretos policiais dos anos 1960, passando por Asterix e Mafalda, em quadrinhos, a Don Quijote de la Mancha ou Os Lusíadas, entre os grandes clássicos da literatura ibérica, o leitor que quiser escrever pode e deve passar por tudo. Só assim aprenderá a selecionar os textos de verdadeiro valor literário, que permanecerão nas listagens dos melhores escritos dos diferentes gêneros e períodos.
Há um livro chamado Para ler como um escritor – um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los, de uma escritora americana, Francine Prose, crítica literária e ensaísta respeitada, professora de literatura e criação literária por mais de 20 anos em universidades como Harvard, Columbia e Iowa, muito bem traduzido por Maria Luísa X. de A. Borges, e que recebeu na edição brasileira acréscimos de Ítalo Moriconi. Foi publicado pela Zahar, em 2008. Creio que pode ser de grande ajuda para quem queira aventurar-se na escrita.
Se eu tivesse que recomendar alguma leitura inicial para as pessoas que queiram trabalhar com a palavra, recomendaria esse livro. Parece que está esgotado nas livrarias, mas ainda pode ser adquirido diretamente da editora.
7- Gostaria que a senhora abordasse a sua vasta obra literária com livros publicados tanto em prosa como em poesia.
Um dos exercícios que eu mais persistentemente tenho tentado praticar ao longo da vida é a coerência. E como é difícil. Mas tenho insistido, e não me arrependo. Assim, não me vejo “escritora”, ainda que já tenha nove livros publicados, esteja com um na fase de editoração gráfica, devendo estar pronto no primeiro trimestre de 2021, e dois outros em andamento. Mas, na verdade, sou, mesmo, uma leitora inveterada e uma brincante com as palavras.
Nasci numa família de intelectuais, literatos, poetas e músicos. Fui alfabetizada aos 4anos,em uma época em que as crianças iam para a escola aos 7. Minha mãe era professora de português. Brinco sempre que na minha família (meus irmãos e eu, meus filhos e netos), até o “titibitate” devia ser feito com concordância e regência verbal corretas.
Na minha casa, lia-se sempre, sem restrições ou reservas. Eu passava temporadas de verão, quando chove muito, na fazenda dos meus pais, lendo de manhã, à tarde e à noite. Ia para lá com uma quantidade razoável de livros. Lembro-me de uma vez em que terminei de ler tudo o que havia levado e ainda ficaríamos mais uma semana na fazenda. Eu tinha 12 anos à época. Não tive dúvida. Escolhi um livro na estante dos meus pais e comecei a ler. Como, desde bem pequena, aprendi a respeitar os autores, nunca abandono a leitura de um livro. Mas aquele foi um verdadeiro sacrifício. Eu dizia: “a única coisa boa deste livro é o título” e o lia em contagem regressiva; faltam 120 páginas, faltam 82 páginas, faltam 59 páginas, faltam 37 páginas, até o fim. Não poderia ser de outra forma; eu havia escolhido O idiota, do Dostoiévski, para ler aos 12 anos. Voltei a ele com pouco mais de 20 anos e o considero um dos grandes livros que li na minha vida.
Menciono tudo isso para reafirmar que só consigo brincar com as palavras porque leio sempre. Desde criança. Já o que eu produzo são textos sobre temas do dia-a-dia de todo mundo, aproveitando fatos vividos ou observados, inventando alguns, contando estórias e casos de uma forma que pretendo leve e divertida. Nessas brincadeiras, cheguei aos livros que divido em duas categorias: textos e prosa. Os leitores costumam classificar os primeiros como poesia, imagino que na falta de melhor classificação. Por isso, listo-os assim. A prosa está composta por estórias, relatos e um livro com a vida e obra de Cora Coralina. São eles:
Fragmentos de mim (poesia – 1990); Andanças no Tempo (poesia – 1996); Fantasia em 5 tons (poesia – 2014); Ofício: trovador (poesia – 2014); Sem precisão nenhuma…casos e estórias (prosa – 2014); Interlúdio (poesia – 2016); A doceira da casa da ponte (vida e obra de Cora Coralina – prosa – 2018); Estórias que meu neto pediu & Estórias que ouvi dos meus netos (infantil – prosa – 2020); Busque as setas e vieiras – de Porto a Santiago de Compostela – impressões de caminhante (prosa – 2020), além de Rio e Sampa – Corumbá, Irecê e Parintins (2021) e Ponto de Foco de uma lente desfocada (2022).
Participo da Associação Nacional de Escritores – ANE, a primeira instituição cultural criada em Brasília, em 21/04/1963, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – HIG-DF e da Associação Casa Álvaro de Campos, em Tavira, no Algarve, sul de Portugal.
Para a ANE, tenho organizado o livro Quintas Literárias, publicação anual que recolhe as palestras feitas no ano anterior, no Auditório Cyro dos Anjos, dessa Associação. Já foram publicados o Quintas Literárias 2017, Quintas Literárias 2018 e Quintas Literárias 2019.
Tenho, ainda, sido uma das palestrantes do programa Quintas Literárias da ANE. Já falei sobre Cora Coralina, palestra da qual resultou o livro A doceira da casa da ponte. Comecei por apresentar Aninha, figura marcante, cuja vida pobre e sofrida foi de uma riqueza admirável, sem a qual Cora Coralina não existiria. Naturalmente a vida literária e a obra de Cora estavam incluídas na minha fala. No ano seguinte, falei sobre Josué Montello, convidando os ouvintes a fazer comigo uma visita à Casa de Cultura Josué Montello e, à medida que a percorríamos (por meio de slides), comentei a vida e a obra montelliana. Seguiu-se Rachel de Queiroz, reconhecidamente famosa por suas crônicas. Escolhi os romances e tentei traçar paralelos entre a sua obra literária e a de outros autores brasileiros, pelo estilo, trama ou personagens. Estas duas palestras foram publicadas no Quintas Literárias 2017 e Quintas Literárias 2018.
Em 2023, fui chamada a falar sobre Érico Veríssimo. Para fugir da mesmice e não repetir a mim mesma, fiz uma “entrevista” com o autor. Conheci um pouco o homem, além do escritor e quero crer que cheguei a perceber suas crenças, seus medos, suas oscilações de humor, suas alternâncias entre ânimo frenético e desânimo paralisante, seu desapego a glórias e condecorações e, principalmente, sua enorme capacidade de contar estórias envolvidas na história.
Tenho participado de lives sobre literatura, entre elas uma sobre José Saramago, na celebraça6o do seu centenário, no programa BarcellArtes, no canal do youtube, conduzido por Renata Barcellos, e sobre a sua própria produção literária, no programa Pedagogia da Gestão, da TCM – TV Cabo Mossoró, conduzido pelo escritor Clauder Arcanjo,
Desenvolvo o projeto Português com e sem açúcar, em parceria com o escritor português Vitorino de Sousa, de produção e divulgação, pelo site www.baudasletras.com e outras redes sociais, de vídeos com a gravação de poemas dos dois, alternadamente, para evidenciar a diferença dos sotaques lusitano e brasileiro.
Divido o meu tempo entre o Algarve (Portugal), Washington (EUA) e Brasília.